Estudo mostra que o local de residência afeta significativamente o acesso ao mercado formal de trabalho e pode reduzir a dependência financeira de programas de transferência de renda. A partir da análise dos beneficiários do programa Minha Casa, Minha Vida, concluiu-se que as residências mais bem localizadas possuíam moradores com maior acesso a empregos formais. O trabalho foi realizado por três economistas com base em informações dos conjuntos habitacionais do programa em três bairros da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.
Entre os moradores mais vulneráveis dessas localidades – que faziam parte do Cadastro Único, o CadÚnico – há uma redução de 6% na participação no Bolsa Família entre os moradores dos bairros Cosmos e Paciência após seis anos. Em Santa Cruz – melhor posicionada no ranking de vínculo com o trabalho formal, apesar de ter piores indicadores de pobreza e educação -, a queda é de 12%.
Na publicação, o acesso ao mercado de trabalho formal é medido pela presença ou proximidade de empregos formais em toda a cidade e nos municípios vizinhos aos conjuntos habitacionais.
Para isso, é feito um cruzamento entre a lista de endereços de empresas com vagas formais (por seus CEPs, com base em dados do Ministério do Trabalho) em diferentes setores da economia, como indústria e comércio, e residencial. endereços. A distância entre os locais é usada para construir um ranking dos bairros.
Os três bairros da matéria estão no terço inferior do ranking da cidade do Rio e cidades vizinhas em termos de proximidade com o mercado formal, mas a posição de Santa Cruz é a melhor entre todas.
Ao analisar sob o ponto de vista do emprego formal, o artigo indica um efeito negativo para moradores vulneráveis de Cosmos e Paciência, mas um aumento de 5,9% na probabilidade de emprego formal em Santa Cruz. As hipóteses para o efeito negativo são por serem localidades mais remotas ou pelo impacto nos laços sociais pré-existentes, segundo os pesquisadores.
Na amostra geral do estudo – que inclui o grupo vulnerável, mas também aqueles que não estão no CadÚnico – os beneficiários do MCMV apresentam efeitos negativos de curto prazo no trabalho formal, possivelmente devido ao maior distanciamento dos empregos anteriores, embora esse impacto se dissipe no o médio prazo. prazo.
“Se há preocupação com o impacto na presença das pessoas no mercado formal, o mais importante é tentar mantê-las geograficamente próximas dos locais de trabalho”, afirma Carlos Belchior, doutorando em Economia na Universidade de Stanford, um dos autores do estudo. estudo, ao lado do professor da University College London (UCL) Gabriel Ulyssea e do professor da PUC-Rio Gustavo Gonzaga.
“Mesmo em regiões periféricas, com menores custos de terreno, é possível escolher a melhor localização de acordo com o acesso ao mercado formal”, argumenta Belchior.
Ele considera que o objetivo principal do Minha Casa, Minha Vida, que é um lugar para as pessoas morarem, cumpre seu papel, mas seria possível ampliar seu alcance com um melhor planejamento dessa política.
“O programa constrói casas e as pessoas vão-se instalando. No entanto, centra-se apenas no elemento habitação, muitas vezes em detrimento de outras dimensões da vida dos beneficiários. Os resultados do estudo mostram que isso poderia ser feito de forma integrada, até porque é um programa caro”, afirma.
De acordo com cada faixa de renda do público-alvo, o programa subsidia até 95% do valor do imóvel ou oferece as menores taxas de juros no financiamento habitacional. Para participar do Minha Casa, Minha Vida, há um limite de renda familiar: R$ 8 mil por mês na zona urbana e R$ 96 mil por ano na zona rural, o que dá em média os mesmos R$ 8 mil por mês.
Depois de cumpridos todos os requisitos, a escolha de quem receberá a moradia é feita por sorteio. Foi esse formato de escolha aleatória que permitiu ao experimento comparar a situação dos moradores e os efeitos da moradia no trabalho, explica Ulyssea.
A base é a literatura econômica que indica a importância do local de residência para o desempenho das pessoas no mercado de trabalho. Nos projetos estudados pelo trio de economistas, também houve sorteio dos bairros onde as pessoas iriam morar.
Mesmo na periferia você pode escolher sua localização com base no acesso ao trabalho.”
-Carlos Belchior
“Os projectos de habitação a preços acessíveis em países de baixo e médio rendimento tendem a situar-se na periferia devido ao custo dos terrenos. Para ‘qualificar’ o bairro, geralmente são utilizados indicadores como renda; educação; e existência de escolas, hospitais e parques. A novidade é olhar para o acesso ao mercado de trabalho, decompondo-o em características objetivas”, afirma o professor da University College London.
No entendimento de Ulyssea, os resultados apontam para diferentes nuances que devem ser levadas em consideração ao redesenhar o Minha Casa, Minha Vida, como prioridade para a baixa renda.
“O artigo identificou maiores ganhos para os mais vulneráveis. É necessário melhorar o foco na elegibilidade do rendimento, para concentrar-se nos mais pobres. Isso não significa que as pessoas de renda média não tenham dificuldades habitacionais, mas é entre os mais pobres que os benefícios do programa são maiores”, afirma o economista.
No ano passado, o governo considerou ampliar o escopo do programa. “Precisamos não fazer só Minha Casa, Minha Vida para os mais pobres. Precisamos fazer Minha Casa, Minha Vida para a classe média. O cara que ganha R$ 10 mil, R$ 12 mil, R$ 8 mil. Esse cara também quer ter uma casa e quer ter uma casa melhor”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em junho de 2023.
“Aumentar o limite do Minha Casa, Minha Vida é um erro. O estudo mostra exatamente o maior impacto da medida entre os mais pobres”, afirma Ulyssea.
Apesar da declaração de Lula, o Ministério das Cidades anunciou, na semana passada, o reajuste das faixas 1 e 2 do programa, mas manteve o teto de renda para ter direito, que é de R$ 8 mil por mês na faixa 3, nas zonas urbanas.
Para o arquiteto e urbanista Sérgio Magalhães, que foi presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e secretário de Habitação do Rio de Janeiro, o estudo dos economistas destaca a necessidade de rever o Minha Casa, Minha Vida. Ele considera interessante a abordagem dos efeitos no mercado de trabalho e lembra que o debate sobre a localização das moradias populares remonta a décadas, quando as pessoas eram removidas das favelas do Rio para áreas mais remotas.
“O estudo mostra a questão da localização do emprego e da moradia. E trata também do fato de que, quando as famílias são transferidas para localidades distantes, isso provoca o rompimento de laços sociais, emocionais e até econômicos. Uma família perde apoio para deixar os filhos para trás e poder trabalhar, por exemplo”, observa.
Se o custo do terreno for mais elevado em zonas mais bem localizadas e com infraestruturas estabelecidas, Magalhães defende a redução da proporção do valor do imóvel que é subsidiado pelo Estado, que atualmente é de até 95% para a faixa 1. “Se for parte do subsídio é para comprar o terreno, a população pode pagar uma parcela maior [em %]com mais satisfação, por estar em uma área mais bem localizada”, afirma.
Outro aspecto a considerar, nota Magalhães, são outras alternativas para reduzir o défice habitacional, a um custo menor, como o aluguer social e a requalificação de favelas e loteamentos, onde as pessoas já têm laços familiares e laborais.
“Está mais do que comprovado que os desenvolvimentos em áreas distantes e periféricas afectam o acesso às infra-estruturas e aos transportes. Mas a questão do mercado de trabalho é menos desenvolvida na literatura”, afirma o urbanista Adauto Lucio Cardoso, coordenador do Grupo Habitação e Cidade do Observatório das Metrópoles.
Na avaliação dele, o estudo é “consistente, criativo e cuidadoso na forma como trabalha com os dados”. “É importante porque estabelece alguns parâmetros. A comparação entre os três bairros traz diferenças significativas no acesso ao mercado de trabalho do grupo mais vulnerável”, diz Cardoso, argumentando que essa questão pode ser considerada em uma reformulação do Minha Casa, Minha Vida.
Procurada, a assessoria de imprensa do Ministério das Cidades não atendeu ao pedido do Valor pelo posicionamento sobre o estudo até o encerramento desta edição.
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