A Amazônia entrou em uma espiral negativa. Protagonista no combate às alterações climáticas, a maior floresta tropical do mundo tem sofrido as consequências de uma crise que exige urgentemente a sua preservação e recuperação. Mais seca e devastada ano após ano, a Amazônia é cada vez mais castigada pelo aquecimento do planeta que, paralelamente, avança em ritmo acelerado, com resistência verde cada vez menor.
“É um círculo vicioso, um fluxo que precisa ser quebrado. Este ano já vivemos a pior seca na Amazônia, ainda mais severa que no ano passado, impacto que, sem dúvida, é resultado não só do desmatamento, mas também das mudanças climáticas globais. A própria floresta é vítima da mudança que tenta conter”, afirma André Lima, secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Planejamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Menos floresta, mais calor. A meta de manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5°C, em relação aos níveis pré-industriais (1850-1900), objetivo que foi estabelecido no Acordo de Paris em 2015, já foi para o espaço. Dados do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo mostram que o período de julho de 2023 a junho de 2024 foi o mais quente já registado na história. As imagens dos rios amazônicos se transformando em filetes d’água fazem parte de uma realidade que tende a se consolidar se a situação não for revertida imediatamente.
As ações mais recentes para combater o desmatamento produziram resultados. Após quatro anos de abusos ambientais no governo de Jair Bolsonaro – período em que a devastação, as invasões de terras e os incêndios atingiram níveis recordes –, a fiscalização aberta e as operações contra os crimes florestais começaram a coibir as atrocidades.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, nos 12 meses iniciados em agosto de 2023 e encerrados em julho de 2024, foram 4.315 km² desmatados no bioma Amazônia, área 45,7% menor que nos 12 meses do ciclo anterior. O resultado também representa menos da metade do que foi perdido anualmente entre 2019 e 2022. São números que incentivam a busca pela meta estabelecida no Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm): chegar a zero desmatamento até 2030.
Mesmo que se consiga uma situação de controlo efectivo da desflorestação nos próximos seis anos, a realidade é que isso não será suficiente, dado o já avançado nível de devastação. “A Amazônia não tem outra saída senão buscar o reflorestamento. Não basta apenas conter o desmatamento. Essa lógica precisará ser revertida, com restauração florestal produtiva em escala para toda a região. É o que precisa ser feito”, afirma André Lima, do MMA. “Não basta confiar apenas em ações de comando e controle contra o desmatamento. É preciso ter políticas para que as pessoas que vivem na Amazônia ganhem mais dinheiro plantando árvores do que criando gado.”
Em 2022, a organização Mapbiomas calculou que o bioma Amazônia, em toda a América Latina, perdeu 17% de sua vegetação natural, com mais de 125 milhões de hectares destruídos. O Brasil, que abriga 60% de todo o bioma, viu a floresta perder 21% de sua floresta nativa. Cientistas alertam que, se a taxa geral atingir o patamar de 20% a 25% de perda de cobertura florestal, o que não está longe, a região poderá atingir um ponto de inflexão sem retorno, comprometendo de vez o seu papel ecossistêmico.
Medidas de proteção e restauração estão em andamento. Há exatamente um ano, em cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o programa União com Municípios para Redução do Desmatamento e dos Incêndios Florestais na Amazônia. O alvo do programa são os líderes da devastação, 70 municípios que juntos respondem por 56% do desmatamento total do bioma.
Pelo acordo, os municípios receberão recursos federais proporcionais à redução do desmatamento e das queimadas que apresentarem. Ao todo, 48 municípios já aderiram ao programa, o que soma repasses programados de R$ 785 milhões.
Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, afirma que, na perspectiva regional, o cenário crítico da Amazônia só será eliminado se o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm) for efetivamente aplicado em seus quatro eixos temáticos: atividades produtivas sustentáveis; monitoramento e controle ambiental; ordenamento territorial e territorial; e instrumentos normativos e econômicos voltados à redução do desmatamento. Ou seja, as medidas devem envolver diretamente a população de 29 milhões de habitantes que reside no bioma.
Território tem 7 mil comunidades isoladas, muitas delas sem serviços básicos
“É preciso promover a regularização fundiária e incentivar atividades produtivas sustentáveis em larga escala. A Amazônia é hoje a região mais pobre e violenta do país e essa situação está ligada à criminalidade ambiental”, afirma Araújo. “Outra linha de ação importante, prioritária, são as iniciativas de adaptação às mudanças climáticas. A população da região precisa de apoio para enfrentar corretamente a realidade desta crise e a tendência de redução do volume de água.”
Alessandra Cardoso, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), avalia que ainda existe um distanciamento entre as ações federais e as medidas que afetam a vida da população amazônica. “O governo tem demonstrado capacidade de captação de recursos, como os R$ 10,4 bilhões para o Fundo Clima, por exemplo, mas a realidade é que esses recursos são direcionados principalmente para grandes investidores. É necessário um plano que resolva os gargalos históricos e desenvolva a Amazônia a partir de uma perspectiva diferente daquela baseada apenas no extrativismo”, avalia.
Na avaliação do especialista, o governo tem razão no seu avanço em direcção a um “plano de transformação ecológica”, mas quando se analisa o que está efectivamente a ser implementado, seja em termos de regulação ou de mecanismos de financiamento, o que se vê está mais direccionado para acções nacionais e para atrair investimentos privados, sem focar nas necessidades específicas da Amazônia.
“O combate ao desmatamento é fundamental e os resultados melhoraram muito, mas isso é apenas a ponta do iceberg de um problema complexo, que inclui outras questões relacionadas à Amazônia, como sua trajetória de desenvolvimento. O governo brasileiro ainda não se mostrou muito eficaz ou proativo na construção de um plano de transformação ecológica adaptado à região”, afirma Cardoso.
“Estamos falando de um território que ainda conta com 7 mil comunidades ribeirinhas isoladas, muitas delas sem acesso a energia e serviços básicos. A dificuldade em escalar soluções de negócios sustentáveis na Amazônia é reflexo da falta de uma estratégia robusta. É necessário que o governo desenvolva uma visão mais integrada e eficaz, que vá além do discurso e que de fato traga benefícios concretos para as comunidades locais”, acrescenta.
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