No primeiro semestre de 2024, o setor de fundos de investimento arrecadou líquido, o saldo entre aplicações e resgates, R$ 159 bilhões, revertendo o fraco resultado do primeiro semestre do ano passado, de menos R$ 124 bilhões, e consolidando a melhoria contínua desde o segundo semestre, quando atingiu o número positivo de R$ 14 bilhões, segundo dados dos Fundos de Investimentos Anbima Boletim.
Essa recuperação, porém, não é uniforme, pelo contrário, está muito concentrada na classe de renda fixa, que respondeu por R$ 192 bilhões da entrada de recursos. Os FIDCs e FIPs, fundos estruturados, que responderam por R$ 20 bilhões e R$ 13 bilhões, respectivamente, também contribuíram para esse resultado.
Entre os chamados fundos líquidos, aqueles que aplicam seus recursos em títulos públicos e privados amplamente negociados no mercado, os de maior risco, porém, não tiveram a mesma sorte. Os fundos multimercado registraram saída líquida de R$ 81 bilhões e os fundos de ações permaneceram estáveis, perdendo modestos R$ 110 milhões.
O primeiro semestre de 2024 é mais uma janela perdida para os investidores de risco e o sangramento se consolida, principalmente entre os multimercados.
Entre as doze modalidades de fundos de ações classificados pela Anbima, que agregam recursos de acordo com a política de investimentos, apenas aqueles destinados a investimentos no exterior obtiveram retorno positivo (2,08%), todos os outros onze permaneceram no campo negativo, com retornos que variaram entre quedas de 4,76% e 13,68% no semestre, em torno da variação do Ibovespa, que desvalorizou 7,66%.
Entre os multimercados catalogados pela Associação, apenas a chamada Estratégia Específica conseguiu superar o CDI, de 5,22% no semestre, as demais modalidades oscilaram entre rentabilidades negativas de 3,40% e positivas de 4,69%.
Este foi mais um semestre ruim para os gestores que decidiram apostar no mercado local e viram a bolsa derreter, o real desvalorizar quase 15% e os juros longos subirem para novos patamares. Os títulos do Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035, por exemplo, que iniciaram o ano negociados a 5,37% ao ano, estavam sendo cotados a 6,25% ao ano no final do semestre, um aumento de quase 1 ponto percentual em apenas seis meses.
Uma análise destes números macro da indústria, no entanto, revela que mesmo nesta situação adversa há vencedores, embora alguns fundos tenham tido um desempenho muito pior do que as médias do mercado.
A partir de uma amostra de quase 1,9 mil fundos e R$ 300 bilhões de patrimônio líquido (PL) à disposição do público em geral, conhecido como varejo – classificados por variáveis como público-alvo, número de cotistas e saldo médio investido – é possível entender o que fez a diferença, ou quais são os impulsionadores da geração ou destruição de valor para os investidores.
Começando pelos fundos de renda fixa, excluindo aqueles mais faladores que tendem a buscar a rentabilidade do CDI, esse grupo totalizou 344 fundos com PL de R$ 92 bilhões.
O grupo de renda fixa, como um todo, obteve rendimento médio de 3,90%, abaixo do CDI de 5,22%. A amostra, porém, não é tão homogênea. Cerca de 60% dos fundos ficaram abaixo do CDI, rendendo média de 2,34%, enquanto os outros 40% conseguiram atingir 6,47% no semestre.
Entre as teses de investimento estabelecidas está o investimento em debêntures incentivadas ou de infraestrutura. Estas ações iniciaram o ano com taxas muito interessantes que permitiram aos gestores apresentar bons resultados.
Entre os 20 fundos mais rentáveis desta classe, quase todos se dedicam a estes ativos. Porém, vale alertar que o melhor momento já passou. Desde que o Governo patrocinou novas medidas para restringir o lastro de activos isentos de imposto sobre o rendimento, por exemplo LCI e LCA, as taxas destas debêntures foram comprimidas devido à maior procura.
No grupo dos piores resultados destacam-se os fundos de inflação, que tendem a concentrar suas carteiras em títulos públicos federais de maior prazo indexados ao IPCA. A subida das taxas de juro, especialmente no extremo longo da curva, desencadeou um processo de reavaliação, ou marcação ao mercado, destas obrigações e empurrou os rendimentos para baixo.
Aqui está uma curiosidade. Desde o início do atual Governo, Lula 3, o presidente da República reclama dos juros e da Selic. Bom, desde julho do ano passado a Selic já caiu 3,25 pontos percentuais mas a taxa de juros brasileira não caiu, pelo contrário. Esta é uma boa oportunidade para os membros do Governo repensarem as suas crenças.
Entre os fundos de ações, a tese vencedora foi no setor de tecnologia da bolsa americana, apoiada pela própria bolsa. No primeiro semestre do ano, o Nasdaq Composite, referência no setor tecnológico, valorizou-se mais de 18% enquanto o S&P atingiu os 14,5%. Entre os 20 fundos mais rentáveis, todos investidos nesses mercados, alguns diretamente e outros por meio de BDR (Brazilian Depositary Receipts).
Na parte inferior da tabela, os 20 piores retornos pertencem aos gestores que decidiram apostar no país e compraram ativos na bolsa brasileira. Alguns desses gestores que optaram por maior concentração, como nos setores de varejo e construção, ou em empresas específicas, acabaram encabeçando a lista dos perdedores. Faz parte, gerir recursos é investir no futuro.
Em média, os 607 fundos de ações da amostra tiveram perdas de 2,57% no primeiro semestre, com metade superando o Ibovespa, permanecendo no campo positivo com rentabilidade média de 7,53%, enquanto a outra metade sofreu desvalorização de 12,31%. A amplitude desse intervalo entre as médias dos piores e dos melhores retornos mostra não apenas o descompasso entre as bolsas brasileira e americana, mas também os efeitos da desvalorização cambial, de 14,8%, que, em conjunto, fizeram com que alguns fundos, investir no exterior, rendeu mais de 30% no período.
Os campeões de rentabilidade entre os fundos multimercados da amostra foram os fundos que investiram em criptoativos, esses fundos dominaram a lista dos 20 mais, seguidos por outras duas teses, metais e setor de tecnologia.
Impulsionadas pelo Nasdaq Crypto Index, que acumulou valorização de quase 43% no semestre, as gestoras dedicadas a ativos digitais ocupam praticamente as 10 primeiras posições entre as mais rentáveis.
No segundo pelotão estão os fundos que compram ações de metais e de tecnologia, cujos benchmarks, GOLD11 (ETF) e Nasdaq Composite, variaram positivamente em 29% e 18%, respetivamente. Assim como no caso dos fundos de ações, esses gestores que optaram por investir no exterior foram ajudados pela desvalorização do Real.
Liderando a lista dos piores resultados estão as multimercados que apostam na Bolsa brasileira. Praticamente todos eles foram atribuídos a quotas de mercado locais.
A rentabilidade média do semestre para esse grupo como um todo foi de 3,32%, sendo que apenas 30% conseguiram superar o CDI, atingindo rentabilidade média de 12,6%, contra 0,9% negativo dos outros 70%.
Meu leitor deve estar cansado desse balé de números, então vamos tentar resumir. O maior aprendizado é que as classes de ativos são importantes. A teoria financeira é rica em evidências de que cerca de 90% do desempenho de um fundo vem da classe de ativos.
O que esse festival de percentuais tem em comum é que os títulos incentivados em renda fixa, as ações de tecnologia para fundos de ações e os criptoativos no caso dos multimercados foram as classes de ativos vencedoras, e não há habilidade de gestão que consiga superar essa barreira.
Por fim, chamo a atenção para o fato de que muitos fundos multimercados, tanto vencedores quanto perdedores, são monoativos ou classe de ativos, ou seja, dedicados a investir em apenas uma classe. Além das regulamentações que proíbem esses fundos de se concentrarem em um mercado específico, os investidores esperam que esses gestores de fundos multimercados utilizem suas habilidades para navegar entre diferentes classes de ativos em busca de oportunidades. Não parece fazer sentido cobrar taxas de administração semelhantes às dos fundos ativos para realizar a gestão passiva em um multimercado que atua em um mercado único. A frase já soa estranha.
Agora é hora de observar o segundo semestre e torcer para que o cenário para investimentos de risco melhore no Brasil. Gostaria de agradecer a Fernando dos Reis Santana pela colaboração nas análises e insights. Indicadores elaborados pela HB Escola de Negócios em parceria com a AF3 Consultoria Dados fornecidos pela Com dinheiro.
Hudson Bessa Economista e sócio da Escola de Negócios HB
hudson@hbescoladenegocios.com
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