O empresário e produtor rural Alécio Feil, 61 anos, tem orgulho de duas coisas. Uma delas é a fama de “Pelé dos Vales”, que conquistou por ter marcado, segundo suas contas, 1.366 gols em 48 anos de futebol amador, a maioria por veteranos do time local, o Nacional Futebol Clube. O outro é o imóvel que possui em Forquetinha, no vale do Taquari, a 130 quilômetros de Porto Alegre, onde mora com a mulher, Inês Schwingel, de 56 anos, e o filho, Fernando Feil, de 34.
O terreno de 30 hectares está arrendado para outros produtores. Uma parte abriga a pecuária, em área montanhosa, e em outra há lavouras de soja e milho, em terras na várzea do Rio Forquetinha, que corta o município. Na sede, a família investiu para criar um espaço de “cartão postal”, com uma bela residência de campo e um lago – a construção mais antiga é uma casa que os antepassados de sua esposa construíram na década de 1880. Mas, no final de abril, o local, que era motivo de orgulho para os Feils, viveu momentos de terror. Pela primeira vez em cerca de 140 anos, as águas avançaram para as casas, numa zona mais elevada, deixando a família isolada, assim como a maior parte do concelho.
“Ficamos presos em casa por cinco dias. Depois, quando a água baixou, ficamos mais 12 dias sem luz e 20 dias sem internet”, lembra Feil. Em quase metade da área, o solo arável desapareceu, puxado pela força do rio, restando apenas terrenos duros, pedregosos, cheios de buracos escavados pela corrente. Na outra metade, Forquetinha depositou lama espessa, cobrindo o que seria destinado às plantações. “Agora é ver como vamos recuperar essas terras”, diz o produtor. “Prevê-se que os valores dos terrenos caiam muito. Nas várzeas, a água do rio é capturada. No morro há deslizamentos de terra. Nem sabemos onde podemos investir.”
O desânimo de um homem do campo conhecido pelo bom humor é o estado de espírito de milhares de produtores rurais gaúchos desde a histórica enchente de maio deste ano. Eles, que já haviam enfrentado a seca nas últimas três safras, estavam no caminho certo para encerrar a temporada 2023/24 com relativa trégua, pelo menos em comparação com as perdas que tiveram nas três temporadas anteriores. Mas as chuvas não pararam. Em casos extremos, como o que o Valor testemunhado durante a visita a Alécio Feil, não há mais solo para semear novas sementes.
As perdas de produção por falta ou excesso de chuvas são um problema recorrente no Rio Grande do Sul. Segundo os meteorologistas, isso ocorre porque o Estado está na região do Brasil mais propensa a sofrer oscilações extremas nas condições climáticas. “Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e parte do Mato Grosso do Sul têm problemas climáticos mais frequentes que o resto do Brasil, tanto envolvendo secas quanto excesso de chuvas”, diz Gilberto Cunha, agrometeorologista da Embrapa Trigo, do Fundo Passo ( RS).
Desde o final da década de 1970, o Rio Grande do Sul sofreu perdas com a seca em 16 temporadas. “Essas secas ocorrem com mais frequência durante a colheita de verão. As chuvas excessivas tendem a afetar mais as culturas de inverno, como o trigo. Mas, às vezes, afetam também a produção de verão, como aconteceu agora em 2023/24, quando o plantio da soja foi atrasado devido à umidade e as enchentes comprometeram a colheita”, afirma Cunha. Com a multiplicação dos eventos climáticos, ele defende que os produtores adotem estratégias de gestão de riscos, como práticas que minimizem os efeitos da seca e das chuvas.
Nas várzeas, a água do rio é capturada. No morro há deslizamentos”
-Alécio Feil
As perdas por mau tempo têm sido recorrentes, mas, segundo Glauco Freitas, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as mudanças climáticas têm acentuado os efeitos dessas ocorrências. “Os eventos são mais intensos, frequentes e duram mais. Não me lembro de termos sofrido secas severas consecutivas, como aconteceu em 2021/22 e 2022/23. Ainda agora, nas chuvas de abril e maio, tivemos chuvas imensas, acima de 800 milímetros, em apenas três a quatro dias, em 80% do estado do Rio Grande do Sul. Isso atrai muita atenção.”
A destruição foi tão grande que em algumas regiões pode ser necessária a troca de locais de produção, avalia o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz. “Teremos que replanejar as cidades [e] locais de produção de suínos e aves. Nas regiões mais afetadas teremos que reposicionar parte da nossa estrutura produtiva. E isso vai custar muito dinheiro”, disse durante a terceira edição do Fórum Futuro do Agro, no início de junho, em São Paulo.
Para Cristiano Oliveira, economista-chefe do banco Pine, as enchentes podem comprometer o agronegócio gaúcho por muito tempo. Outros bancos e consultoras realizaram análises semelhantes, com diferenças na dimensão da queda que prevêem para a atividade económica em geral e para o PIB agrícola em particular.
O governo federal anunciou ações de apoio à agricultura desde o início das enchentes. Entre eles estão a abertura de R$ 2 bilhões em crédito por meio do Programa Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Pronampe, R$ 1 bilhão), do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf, R$ 600 milhões) e do Programa Nacional de Apoio às Médias Empresas Rurais. Produtores (Pronamp, R$ 400 milhões) e a criação do Programa Emergencial de Acesso ao Crédito, em que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) permite garantia de até 80% por operação para produtores rurais e empresas que faturam a R$ 300 milhões por ano. De qualquer forma, ainda é cedo para avaliar com precisão o impacto dessas e de outras medidas na recuperação da agricultura gaúcha.
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