A diferença entre remédio e veneno é a dose. E a analogia cabe bem quando se pensa no mercado acionário brasileiro, cuja concentração de empresas de commodities e bancos se destaca.
Os investidores estrangeiros procuram as empresas mais conhecidas e resilientes, com maior volume de negociação e, portanto, com maior liquidez, para se exporem ao mercado local – justamente o caso da Petrobras, Vale e bancos. Por outro lado, falta “carisma” aos setores mais tradicionais quando comparados ao tema do momento: a inteligência artificial (IA), responsável pela ascensão histórica da bolsa americana desde o ano passado.
Anderson Gonçalves, sócio do Grupo Manchester, destaca que, historicamente, grandes oportunidades de investimento surgem não apenas em empresas diretamente envolvidas numa revolução, mas também aqueles que fornecem materiais e serviços essenciais. “Olhar para além das empresas core pode revelar fornecedores que captam tanto ou mais do crescimento e inovação do setor, mostrando que a verdadeira oportunidade reside muitas vezes naqueles que alimentam a revolução”, salienta.
De qualquer forma, esta visão não tem favorecido a busca por empresas brasileiras beneficiadas pela explosão da IA nos Estados Unidos. Pelo contrário. A impossibilidade de exposição direta a grandes players geradores de IA está entre os motivos para falta de interesse dos investidores estrangeiros no mercado de ações brasileiro em 2024 – além da demora para queda dos juros americanos e das incertezas sobre a economia local.
“O investidor global procura a narrativa que se acredita ser a grande vencedora. E a inteligência artificial é o tema de investimento mais relevante desde 2023. Como o Brasil não é um grande representante do tema, seja por não trabalhar diretamente com IA, acaba saindo de moda”, observa. Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos.
Kinea destaca ainda que os investidores brasileiros, sejam institucionais ou individuais, buscam duas coisas: empresas valiosas e aproveitar oportunidades trazidas por temas de destaque, como inteligência artificial, biotecnologia (com a nova indústria de perda de peso) e indústria aeroespacial.
A gestora aponta corrida pelos recebimentos de ações estrangeiras negociadas na bolsa brasileira, os BDRs; e fundos que seguem a Instrução CVM 555 (e que passarão a seguir a Instrução CVM 175), que têm como limite 20% de exposição em ações internacionais. O movimento ajuda a sustentar alguns números: a bolsa brasileira, B3, perdeu 260 mil investidores individuais em um ano.
Por outro lado, embora o volume de investidores individuais no B3eles ainda representam a categoria que mais contribuiu com dinheiro para o mercado de ações neste ano. Somado a isso, dados do Journal of International Money and Finance mostram que, no Brasil, a alocação em ações no exterior é inferior a 10%.
Na opinião de Kinea, parte desta baixa alocação é explicada pelo “viés doméstico”.
O termo refere-se, entre outros aspectos, à tendência dos investidores em preferirem activos financeiros do seu próprio país. Este enviesamento pode ser influenciado por um excesso de confiança nas perspectivas económicas internas ou por uma aversão ao risco percebido dos mercados estrangeiros. Embora os gestores identifiquem uma tendência decrescente no “viés doméstico”, esta inclinação na tomada de decisões ainda não é negligenciável.
De qualquer forma, dito tudo isso, a insistência do investidor brasileiro em não pisar no jardim do vizinho não implica ficar completamente de fora do hype global sobre IA. Sim, você pode obter pelo menos um cone com ações listadas aqui mesmo em seu portfólio.
Weg aparece como opção diante do correlação entre a expansão da IA e dos data centers e os impactos desses fatores em relação ao maior consumo de energia elétricaespecialmente nos Estados Unidos.
“A ampliação dos investimentos em energia pode impactar positivamente a demanda por equipamentos como transformadores, produtos nos quais a Weg tem importante exposição. Com essa potencial aceleração causada por esses segmentos, vemos implicações positivas para as ações, ainda mais considerando ações como a da Weg, cujos preços representam um alto nível de crescimento para seus resultados financeiros futuros”, comenta, Lucas Laghi, líder da área de Mineração e Siderurgia, Papel e Celulose e Bens de Capital da XP.
Com isso no radar, a XP elevou a recomendação da WEG de neutra para compra e o preço-alvo de R$ 35 para R$ 54.
Rafael Oliveira, gestor de fundos de ações da Kinea Investimentosacrescenta que o fornecimento de peças para transmissão de energia demandado pelos Estados Unidos representa uma parcela interessante do faturamento da empresa.
“No Brasil, temos preferência por empresas com perspectiva de revisão de seu EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), ou que paguem dividendos, e que nos permitam navegar em temas que olhamos globalmente. A Weg nos dá exposição à IA e também possui outros atributos importantes, como ser uma empresa industrial, com mentalidade de startup”.
Ele cita que cerca de 60% dos produtos da empresa foram desenvolvidos nos últimos cinco anos. Além disso, está exposto ao mercado de cobre, commodity que, na visão da Kinea, continuará a ganhar relevância dada a procura por mobilidade elétrica.
O Itaú BBA elevou o preço-alvo da WEG de R$ 47 para R$ 52, reiterando recomendação de compra. Os analistas Daniel Gasparete, Gabriel Rezende e Luiz Capistrano afirmam que a crescente demanda mundial por produtos energéticos, especialmente para apoiar o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial, beneficia diretamente a WEG. A perspectiva do banco é que os resultados do segundo trimestre da empresa mostrem aceleração na geração de receitas.
Eduardo Grübler, gerente de renda variável da Warren Investimentos, argumenta que a Totvs consegue oferecer seus produtos de tecnologia de forma mais eficiente ao utilizar modelos de inteligência artificial há muito tempo. A empresa, que desenvolve e comercializa software de gestão, ampliou o potencial de suas unidades de negócios ao integrar novos recursos de IA.
Essa, inclusive, foi a principal mensagem do Investor Day, realizado em junho, observa a Genial Investimentos.
“Ao apresentar integrações de seus produtos com IA, em nossa análise, embora nada de transformacional tenha sido revelado, entendemos que esta etapa é crucial para que a empresa mantenha sua liderança de mercado e não fique atrás de seus concorrentes”, diz o relatório assinado pelo analistas Antonio Cozman, Kaique Rocha e Iago Souza.
“A Totvs demonstrou um balanço saudável, um bom histórico de gestão e tem mais caixa do que dívidas. Isso abre espaço para a empresa se permitir testar mais sem que isso prejudique o longo prazo”, acrescenta Gonçalves, de Manchester.
O UBS BB, que nos últimos dias elevou o preço-alvo das ações da empresa para R$ 33,50, ante os R$ 33 avaliados anteriormente, prevê que o segundo trimestre da empresa deve ser construtivo em termos de crescimento de receita, mas manteve recomendação “neutra”.
Já o Goldman Sachs, que iniciou a cobertura da Totvs com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 33, observa que a empresa mantém fundamentos robustos e boas perspectivas de crescimento. No entanto, os valores atuais das ações seriam elevados. Sem a presença de gatilhos de curto prazo, seria necessário um cenário onde a empresa conseguisse materializar iniciativas que gerassem crescimento para justificar preços tão elevados em relação à atual geração de resultados.
A Bemobi é outra empresa que utiliza inteligência artificial em seus produtos. Mas só mais recentemente os investidores estão a compreender o que os diferentes tipos de modelação de inteligência artificial trazem para a empresa, sustenta Grübler, de Warren.
“Ter mais conhecimento sobre o tema ajuda a potencializar o fluxo de compradores de ações. E, no final das contas, o que move o preço das ações é o fluxo. Vejo Bemobi e Totvs como os principais beneficiários do interesse dos investidores em entender a IA.”
Em relatório divulgado ao mercado, o Itaú BBA elevou a recomendação e o preço-alvo das ações da empresa – que surgiu para oferecer conteúdo às operadoras de telecomunicações, mas vem ampliando seu modelo de negócios para abranger outras linhas, como pagamentos e microfinanças. Agora, a recomendação é comprar pelo preço-alvo de R$ 20.
O banco avaliou que a empresa poderá apresentar um crescimento significativo nos próximos anos, impulsionado, entre outros motivos, pela atuação em novos setores.
Numa “segunda prateleira” de ações, estão empresas menores em valor de mercado. ClearSale e Infracommerce, do setor de Tecnologia da Informação, e Neogrid, do setor de Bens Industriais, são alguns exemplos cujos clientes de seus produtos já estão obtendo alguns ganhos com a eficiência da IA.
- A ClearSale, que oferece produtos de segurança e antifraude, se beneficiará à medida que as empresas buscam proteger as informações usadas para alimentar os modelos de IA incorporados em seus produtos e processos.
- Para a Infracommerce, responsável pela operação de e-commerce de empresas como Ambev, Nike, Samsung e Motorola, a inteligência artificial tende a ser uma aliada na identificação de novos potenciais clientes dentro das plataformas de vendas.
- A Neogrid integra IA na oferta de soluções para gerenciamento e sincronização da cadeia de suprimentos do varejo. Com isso, a gestão de estoques das empresas tende a ser mais eficiente, abrindo espaço para redução de custos e geração de caixa, destaca. Vinicius Fonseca, especialista em renda variável da Ável Investimentos.
Por outro lado, Fonseca, de Ável, e Gonçalves, de Manchester, fazem alguns apontamentos.
ClearSale apresenta valorização de valor 124% desde o início do ano até o pregão de ontem (29), mas o movimento decorre da notícia de que estaria em negociações finais para ser adquirida pela Serasa Experian. O especialista da Ável aponta ainda a concorrência no fornecimento de produtos de segurança da informação como uma barreira à entrada. Infracommerce e Neogrid, por sua vez, mostram desvalorização do 81% e 9,50, respectivamente, no mesmo período.
“Dados recentes da Infracommerce mostram um aumento significativo na receita líquida, de R$ 101 milhões em 2018 para R$ 1.072 milhões em 2023. Porém, a empresa tem uma dívida de R$ 734 milhões, o que penaliza muito seu balanço, principalmente em momentos de juros altos taxas como as que estamos vivenciando hoje, as despesas com vendas da Neogrid saltaram de 14,4% no primeiro trimestre de 2023 para 18,4% no primeiro trimestre de 2024.”
Na bolsa, as ações da Infracommerce são classificadas como “penny stock”, com preço abaixo de R$ 1 e as ações da Neogrid são negociadas um pouco acima disso.
“O preço das ações reflete o entendimento do mercado de que existe um risco muito grande embutido no negócio. São empresas com potencial de crescimento, mas que precisam queimar caixa antes de gerar lucro e que sofrem mais com variáveis incontroláveis, como o ambiente macroeconômico interno.. A alta do dólar e dos juros é especialmente prejudicial para títulos com esse perfil”, afirma Fonseca, da Ável Investimentos.
Esses aspectos ajudam a reforçar, na visão de Gonçalves, do Grupo Manchester, que o investidor não pode se deixar levar apenas pelo entusiasmo do mercado pelo tema central.
“Ainda é muito cedo para identificar, no nosso mercado de ações, quais empresas irão beneficiar plenamente da IA. Devemos continuar atentos às divulgações de dados financeiros das empresas e ao seu histórico de gestão, verificando se elas realmente vêm apresentando resultados positivos e cumprindo suas projeções.“, sustenta.
Mas atenção, diversificar é necessário para reduzir riscos.
“A verdadeira oportunidade de investimento reside em empresas que não só aproveitam a onda das novas tecnologias, mas que demonstram, através dos seus números e gestão, a capacidade de prosperar a longo prazo“, diz Gonçalves.
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