Muitas vezes, quando viajamos por uma cidade, temos a impressão de que lá não moram crianças pequenas. Na verdade, eles existem, mas não são visíveis. Eles não circulam nas ruas, seja porque as calçadas são estreitas e cheias de obstáculos ou por falta de segurança. Experiências internacionais bem-sucedidas podem, no entanto, servir de inspiração para administradores que procuram ideias inovadoras não só para a população infantil, mas também para muitas outras medidas que podem tornar as cidades mais inclusivas.
Há cerca de sete anos, a brasileira Clara Cezar de Andrade Hallot acompanhou um grupo de mães de crianças de zero a 5 anos, algumas delas empurrando carrinhos de bebê, pelas ruas de La Acacia, em Ciudad Bolívar, um dos bairros mais pobres de Bogotá. . Na época, Hallot era gerente das equipes de serviços sociais e planejamento urbano da Bloomberg Associates, onde ainda trabalha como consultora.
Para muitos, a ideia de mapear propostas de intervenções urbanas em um dos bairros do Bronx, em Bogotá, que, quando dominado pelo tráfico de drogas, era conhecido como “a porta do inferno”, parecia um desafio quase impossível.
Mas foi com ideias simples que uma parceria entre a Bloomberg, a fundação holandesa Van Leer e a colombiana Casa de la Infancia conseguiu criar em La Acacia um conceito denominado zona prioritária para crianças.
Entre as mudanças, quem precisa empurrar carrinho de bebê conta com corredores específicos, que cortam vias destinadas ao trânsito. Além disso, com a ajuda dos serviços sociais locais, um antigo edifício de um batalhão militar foi convertido num centro recreativo. E um tribunal que antigamente atendia usuários de drogas foi cedido a uma creche esportiva.
O projeto incluiu mudanças no trânsito, parques, murais coloridos e espaços para as crianças se pintarem. “A dinâmica do bairro mudou”, diz Hallot. “Uma cidade que funciona para as crianças funciona para todos.”
Preocupado com o impacto que o desenho urbano tem no desenvolvimento infantil, Van Leer provoca frequentemente gestores públicos, arquitetos e urbanistas a pensarem as cidades a partir da perspetiva de alguém que tem 95 centímetros de altura, a altura média de uma criança de três anos.
A experiência em La Acácia serviu de inspiração para que a Fundação Van Leer e a Prefeitura do Recife desenvolvessem projetos semelhantes na capital pernambucana.
Entre as ações e intervenções urbanas já realizadas estão a Praça da Infância, desenvolvida a partir de um guia, segundo Luciana Lima, secretária executiva da Primeira Infância do Recife.
Já existem dez praças com essas características na cidade. Utilizado pelo município desde 2022, o guia estabelece parâmetros de inclusão, segurança, liberdade e visibilidade das crianças e serve para orientar o desenvolvimento de futuros espaços.
Realizadas em coautoria com as comunidades, por meio do escritório de Inovação Urbana, as ações nos bairros do Recife também criaram roteiros mais seguros para crianças de zero a 6 anos.
Projetos que criaram espaços amigáveis para bebês, crianças pequenas e seus cuidadores em Bogotá e Recife são exemplos destacados por Hallot para explicar que projetos-piloto em uma cidade podem servir de inspiração para muitas outras que enfrentam problemas semelhantes em qualquer lugar do mundo.
Desde que começou a trabalhar na Bloomberg Associates, há dez anos, num projeto destinado a prefeitos, Hallot trabalhou em programas de planejamento urbano com foco em questões sociais para 20 cidades em dez países.
A experiência internacional ensinou-lhe, por exemplo, que “o conceito de espaço público não é o mesmo em todas as cidades”. Mas isto não impede que soluções criadas numa parte do planeta sejam replicadas. E ainda: os hábitos da população de um país inteiro podem ser imitados pelos habitantes de outro.
Nos Estados Unidos e na França, por exemplo, diz ela, a população interage mais com as cidades, tendo em mente que o espaço público é comunitário.
“Os cidadãos precisam ter um sentimento de pertencimento a uma cidade. Mas na América Latina prevalece a ideia de que o espaço público pertence ao Estado. Nas cidades brasileiras isso melhorou muito. Mas ainda há quem pense: por que vou recolher meu lixo se tem lixeiro?”
Somente por meio da troca de experiências entre prefeitos e demais gestores públicos é possível ajudar a trazer soluções que muitas vezes ficam limitadas a uma comunidade específica. Hallot cita a iniciativa de Chicago, que, após a pandemia, abriu licitações voltadas para pequenas e médias empresas. “Foi uma forma de dinamizar o comércio local, de impulsionar os empreendedores da cidade”, afirma.
Esta não foi a única lição deixada pela pandemia. O trabalho remoto, que ganhou força com a necessidade do isolamento social, ainda pode servir aos cidadãos. Segundo Hallot, em Londres, há dois anos, começou uma task force que reuniu empresas do sistema nacional de saúde (NHS), e dos transportes públicos rodoviários e ferroviários (TCL e Thamslink) para devolver ao mercado de trabalho as pessoas que precisam. ficar em casa.
As reuniões envolvem a revisão de horários, cargos e deveres dos funcionários. “Todos estão na mesma mesa discutindo como dar mais flexibilidade a quem precisa, por exemplo, cuidar de um familiar”, diz Hallot.
Formado em direito pela PUC-SP, Hallot mudou de carreira ao começar a trabalhar na Bloomberg Associates logo após concluir o mestrado em administração pública pela Columbia University. Morou sete anos em Nova York, até que, em 2019, após se casar com um carioca, decidiu se mudar para o Rio, onde cria as três filhas.
Seu trabalho focado no planejamento urbano inclui projetos de educação infantil, equidade nas compras públicas, prevenção da violência juvenil, moradores de rua e violência doméstica.
Por ser um problema que se espalha pelo mundo, a questão dos moradores de rua é um dos temas que mais pode intensificar a troca de ideias entre as cidades.
Para Hallot, o debate exige o envolvimento de diversos atores, desde instituições religiosas até a academia. “As soluções têm que ser integradas porque se a pessoa não fizer nada de errado não poderá ser retirada da rua”, afirma.
Segundo ela, algumas cidades têm avançado na discussão em torno da situação de rua porque envolve diversas frentes. Londres e Manchester, por exemplo, divulgaram documento assinado por empresas, instituições de caridade, grupos religiosos e comunitários. O texto pede que cada signatário cumpra seu papel, desde relatar quando vê pessoas necessitadas até buscar soluções.
A escolha de viver na rua nem sempre é consequência de não ter onde viver, embora, diz a consultora, ter acesso à habitação ajude muito. “Às vezes é preciso primeiro atrair o morador de rua para um abrigo que permite o uso de drogas e só depois encaminhá-lo para outro que o proíbe. É muito trabalho duro, caro, mas tem que ser feito”, diz ela.
A prevenção precisa andar de mãos dadas. “Se uma família está prestes a perder a casa onde mora, ela tem que saber quem procurar”, afirma. Ela lembra que serviços públicos como esse são divulgados em cartazes afixados no metrô de Nova York, por exemplo. “Às vezes uma cidade oferece muitos serviços que as pessoas desconhecem. Você tem que fazer marketing.”
Durante a pandemia, Alexandria, cidade da Virgínia, nos EUA, iniciou um movimento para evitar despejos. O grupo de trabalho permanece e envolve tudo, desde tribunais e autoridades policiais até serviços de apoio jurídico ou nutricional.
A abordagem da situação de rua leva a conversa com Hallot para outro tema que reaparece frequentemente durante as eleições municipais: a dificuldade de atrair moradores da periferia para morar no centro da cidade e mais próximos do trabalho.
Para Hallot, algumas cidades que investiram em habitação pública na periferia se depararam com o problema que levou os pesquisadores a Milão. Eles queriam entender por que havia ali uma segregação escolar acentuada.
Como os imigrantes se concentraram nos bairros periféricos, o número de estudantes estrangeiros chegou a 100% nas salas de aula dessas regiões.
“Isto cria uma barreira económica e cultural”, destaca Hallot. Segundo ela, o trabalho realizado em Milão buscou não só atrair imigrantes para o centro, mas também elevar a qualidade de vida nas periferias para atrair italianos para bairros mais distantes.
Existem, diz o consultor, diversas formas de oferecer moradia no entorno do local de trabalho. O aluguel subsidiado é um deles. A concessão de benefícios aos comerciantes é outra. “Caso contrário, vira o chamado efeito Tostines: não moro lá porque não tem atrativos ou não tem atrativos porque não tem moradores”, afirma.
Para Hallot, toda cidade precisa oferecer transporte de qualidade. Mas, ao mesmo tempo, é preciso “pensar em bairros autossuficientes”. São projetos de longo prazo. Requerem, destaca, o envolvimento de múltiplas administrações e diferentes esferas do poder público.
“Quando se faz um projeto habitacional subsidiado é preciso avaliar as ligações daquele bairro com a rodoviária, por exemplo, com outros serviços, ou se existem parques para crianças. Uma cidade não é feita de prédios e ruas, mas de pessoas”, afirma.
Para Hallot, ao contrário do que muitos pensam, as cidades brasileiras também têm muito a oferecer. “Quantas vezes pessoas de fora nos dizem que gostariam de morar no Brasil só pelo clima?”, diz. E então vale a pena procurar um terreno comum.
Ao concordar recentemente com um plano de trabalho em Adis Abeba, o consultor da Bloomberg Associates ficou entusiasmado ao sentir o alívio dos representantes da sociedade na capital etíope, que disseram: “Ótimo; estamos cansados de saber como viver em Copenhague.”
Hallot valoriza o papel do prefeito de uma cidade. “Mas ele precisa ser criativo. Caso o prefeito não seja o responsável pela Polícia Militar, ele também pode colaborar com a segurança cuidando da iluminação pública, por exemplo”, afirma.
“Muitos dizem que o prefeito não tem poder. Mas tem uma relação direta com a cidade. E ele tem que deixar sua marca, trabalhar com a sociedade civil para que seus projetos se perpetuem. A grandeza de um projeto público aparece quando ele é perpetuado.”
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