Capa do livro ‘Mundo Fraturado: uma reflexão sobre a crise da ordem liberal’. Reprodução/ Editora Matrix A polarização no mundo hoje não ocorre apenas entre esquerda e direita, mas também é alimentada por divisões dentro dos próprios movimentos liberais e conservadores tradicionais. Partindo da divisão dentro dos grupos conservadores americanos, o diplomata e economista Diogo Ramos Coelho investiga, no seu novo livro, a fragmentação global e o crescimento do “populismo nacional” a partir da ascensão das políticas de identidade. Tendo os Estados Unidos como foco de estudo, o caminho traçado em “Mundo Fraturado” pode ser visto em diversos países. O blog conversou com o autor, que inicia sua turnê de lançamento do livro esta semana, em Brasília. Confira a entrevista abaixo. Trump e Kamala se enfrentam no primeiro debate do dia 10 de setembro. Ana Flor — A polarização persiste no mundo e parece cada vez mais forte. Nos Estados Unidos, Donald Trump capturou o movimento conservador e continua popular mesmo após a derrota em 2020. O que explica esta força? Diogo Ramos Coelho — Explico no livro que a política, em várias democracias ocidentais, é marcada por uma batalha de identidades. A formação de alianças políticas hoje tende a priorizar aspectos identitários. Este discurso foi inicialmente associado à esquerda, mas hoje vemos uma direita que valoriza igualmente as categorias identitárias: etnia, religião, família, nação. Essa mudança é bastante visível nos Estados Unidos. Não faz muito tempo, o debate entre conservadores e progressistas acontecia sobre temas mais comuns. Por exemplo, qual a melhor forma de promover o crescimento económico, com mais ou menos intervenção estatal? Outros debates, muito necessários, centraram-se em como reduzir as desigualdades e como incluir grupos anteriormente marginalizados (mulheres, negros, imigrantes, homossexuais), com uma mensagem universalista e baseada no fim das diferenciações. À medida que uma visão identitária começou a orientar o debate político, surgiu também uma disputa dentro do movimento conservador americano. Este movimento, no final do século passado, foi representado por uma fusão de duas perspectivas que apresentam divergências consideráveis entre si: as tradicionalistas e as libertárias. Nesta síntese, a defesa das tradições, dos costumes e da cultura passou também a incluir a defesa do “laissez-faire” económico. [ modelo político e econômico de não intervenção estatal] e ética individualista. O governo de Ronald Reagan foi o exemplo máximo desta síntese, que sobreviveu com pai e filho de Bush. Desde 2010, no entanto, esse consenso foi quebrado. A ascensão política de Donald Trump foi a gota d’água no equilíbrio destas forças. Na nova formulação do conservadorismo americano, a proteção da soberania nacional, da comunidade local e da cidadania são temas mais importantes do que a autonomia individual, a defesa do governo pequeno, a globalização e o “laissez-faire”. A mudança de orientação desse movimento ainda é um tema pouco explorado e discutido. Noto no livro que, para avançar nesta batalha de identidades, alguns políticos conservadores recorreram a slogans patrióticos, à defesa da religião, das tradições locais, da família, da comunidade étnica e cultural. Afinal, o nacional-populismo é um subproduto desta mudança. É também um movimento protecionista em termos económicos. Neste novo cenário, um denominador comum é o desafio da ordem liberal e das ideias que a sustentam, vistas como ultrapassadas, limitadoras e incapazes de dar voz aos desejos do povo. Ana Flor — A democracia está mesmo em risco? Diogo Ramos Coelho — A ascensão de líderes autocráticos é um fator preocupante. Mas prefiro uma abordagem focada em nuances, em mudanças mais sutis nos termos do debate. Estou falando de fraturas, fissuras. Há uma crise nas ideias que sustentam a ordem liberal. Menciono no livro que, com o fim da Guerra Fria, acreditava-se que as ideias liberais clássicas triunfariam sem oposição significativa, tanto no Ocidente como no estrangeiro. No entanto, no início deste século, tem havido uma percepção crescente de que o liberalismo já não satisfaz os desejos populares de igualdade, desenvolvimento, fim da discriminação, afirmação de identidades, laços comunitários e harmonia social. Com a crise do liberalismo, surgiu uma nova era. Para alguns, isto significa libertar-se de estruturas opressivas; para outros, restaurar tradições de um passado idílico. Como resultado, muitas democracias, em tempos de crise, foram dominadas por uma atmosfera de desafio ao “status quo”. O que é convencionalmente chamado de “sistema” é percebido como corrupto, opressivo e ineficaz. Este descontentamento impulsiona movimentos populistas e nacionalistas, que colocam o “povo” contra as “elites”. Fora do Ocidente, a democracia liberal é vista como uma ideologia egoísta, decadente e instável. Ana Flor — Qual o impacto dessa mudança no Brasil? Diogo Ramos Coelho — O Brasil não está imune a esses movimentos. Há uma tendência nacional, por exemplo, de observar e importar muitos dos temas da política americana, embora a nossa realidade seja bem diferente. As batalhas políticas, porém, são apenas algumas das fraturas que exploro no livro. Discuto também as fraturas nas instituições internacionais, a globalização, os conflitos geopolíticos, o impacto das mudanças tecnológicas, como a Inteligência Artificial, e a importância do espaço digital. Hoje, muitos analistas recorrem a categorias simplistas, como a alusão de que vivemos numa nova “Guerra Fria”, opondo democracias e autocracias. Penso que esta divisão não capta as nuances do cenário internacional. A disputa entre democratas e autocratas, por exemplo, pode ocorrer tanto dentro dos países como entre eles. Também vale a pena mencionar que muitos países em desenvolvimento têm evitado dividir o mundo nestes termos, procurando manter uma distância pragmática e preservar a sua autonomia. Estes países, compreensivelmente, estão mais focados em questões como a vulnerabilidade climática, o combate à fome e à pobreza, o acesso à energia e ao investimento, a preservação das redes comerciais, o progresso tecnológico e as melhorias nas infra-estruturas, na saúde e na educação. A fragmentação global é vista como um obstáculo à resposta a estas crises urgentes.
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