César Maia: Só um profissional competente como o Conde poderia ter criado o Rio Cidade.
Luís Paulo Conde: O Rio Cidade foi criado para deixar as ruas livres, aumentando a segurança e o bem-estar dos pedestres.
Leandro Resende: Seria muito presunçoso dizer que, na eleição de 96 para prefeito do Rio, foi criada uma fórmula para eleger sucessores. Mas, sem dúvida, esta estratégia norteou a campanha. César Maia escolheu um arquiteto desconhecido para ser o “pai do Rio Cidade”, para que ele, César, pudesse continuar no comando.
De um lado, tivemos a continuação do projeto político que venceu em 92. Do outro, um político em início de carreira, mas que já caminhava para ser muito poderoso…
Sérgio Cabral: O que é essa necessidade de poder, que não conhece limites éticos ou morais? Ele ainda prometeu reduzir o IPTU na área de balas perdidas. Esta é uma manipulação grosseira dos sentimentos das pessoas.
Leandro Resende: Este é o quarto episódio da segunda temporada do podcast “Como chegamos até aqui”, em que eu, Leandro Resende, conto para vocês as histórias das eleições para prefeito do Rio após a ditadura.
Em primeiro lugar, deixe-me abrir o caminho para a estreia mais importante desta temporada:
(Som da urna eletrônica)
Leandro Resende: Esta eleição foi a primeira da nossa história em que foram utilizadas urnas eletrônicas. Uma novidade que agilizou o processo de contagem de votos, que até então demorava dias.
Presidente do TRE: Agora, temos a oportunidade de realmente fazer o povo brasileiro escolher quem ele quer, e não com essas fraudes que a gente sabe que o sistema manual de contagem de votos, com mapeamentos, com urnas, com cédulas, isso é indesejável.
Leandro Resende: A outra estreia desta eleição é a de Luiz Paulo Conde. Ele era um arquiteto respeitado, mas pouco conhecido pelos cariocas, e foi escolhido por Cesar Maia para ser “o cara” do seu primeiro mandato, como já dei spoilers na abertura deste episódio.
[conde nao sou politico] Contar: Não sou um político no sentido da política como objetivo. Sou arquiteto e urbanista que veio para a política, mas não tenho nenhuma relação negativa com a política. E me sinto preparado para dirigir o destino da cidade do Rio de Janeiro.
Leandro Resende: Nosso “não-político” era do PFL, foi secretário de Urbanismo de César Maia, foi responsável pela obra da Linha Amarela, importante via que corta as zonas Norte e Oeste da cidade, e de programas como Favela Bairro, que forneceu infraestrutura para áreas pobres. Mas a joia era mesmo o Rio Cidade, um programa de melhoria urbana em todo o Rio.
Propaganda política: Você conhece o Conde? O homem do Rio Cidade, da Favela Bairro, da Linha Amarela. Foi o Conde quem fez tudo isso, no governo César Maia – e esse trabalho precisa continuar!
O principal adversário do Conde era jovem, mas já ganhava experiência… Ficou em quarto lugar nas eleições para prefeito do Rio em 92, foi deputado estadual pelo PSDB, presidente da Assembleia Legislativa e nome forte do governador Marcello Alencar. Sérgio Cabral regressa agora a este podcast, ainda mais poderoso.
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[cabral problemas sociais] Cabral: Claro que quero que a cidade seja preservada, quero que as calçadas estejam limpas, garantidas para os pedestres. Agora, eu quero primeiro resolver os problemas sociais, a cidade tem problemas sociais muito sérios.
Essa fala de Cabral na campanha começa a nos situar no principal debate da cidade naquela eleição. Em quatro anos, a questão da segurança pública deu lugar a investimentos em infraestrutura, e Cesar Maia transformou a cidade num verdadeiro canteiro de obras. Estas intervenções foram a base da dupla Maia-Conde, mas, ao mesmo tempo, o teto de vidro.
Miró Teixeira: As obras não são feitas há três anos e a cidade está um inferno, porque o prefeito Cesar Maia estava preocupado em inaugurá-las no ano da eleição. Portanto, ele arruinou a vida da cidade. Ele tratou o Rio de Janeiro como o Odorico Paraguaçu, aquele personagem do Dias Gomes, tratou a sucupira, querendo criar o cemitério para a inauguração no ano da eleição.
Leandro Resende: Este é Miro Teixeira, político rodoviário escolhido por Leonel Brizola em 96 para tentar dar chance de sobrevivência ao PDT. O ex-governador queria voltar ao poder, mas apareceu muito menos na campanha… Não que isso tenha impedido os demais candidatos de mencioná-lo.
César Maia: O eleitor sabe que, neste ano de 1996, decidirá se quer voltar para Brizola com a candidatura de Mirio Teixeira, ou se quer ir para o futuro, a continuidade da minha gestão com o candidato Cesar Maia, o secretário Contar. Essa é a decisão.
Leandro Resende: A esquerda foi para uma disputa dividida. Miro concorreu pelo PDT, e pelo PT, que perdeu por pouco na eleição anterior, o escolhido foi Chico Alencar, que foi vereador relevante, mas não conseguiu unir nem mesmo os petistas em torno de seu nome.
[eleitorado pt] Chico Alencar: Há uma parcela do eleitorado petista, que é o partido de maior expressão simbólica entre os que têm alguma preferência partidária no Brasil e no Rio, que certamente não apostaria em uma candidatura hegemônica do PDT, certamente não. Agora, respeito aqueles camaradas do PT que acham que esse é o melhor caminho, discordo desse caminho, a maioria do partido também não concorda com isso, e adotaremos essa posição no domingo.
Leandro Resende: Além de articular a candidatura de seu sucessor e transformar a cidade em um canteiro de obras, Cesar Maia também criou diversos factóides para permanecer na mídia e construir sua popularidade. Em seu primeiro dia de mandato, por exemplo, em 93, Maia saiu às ruas para multar motoristas infratores. Em outras ocasiões, também pediu sorvete no açougue, usou sobretudo no verão e ainda disse que controlava a chuva com a ajuda de um espírito indígena.
[cobra coral] César Maia: Fiquei oito anos com a cidade como uma espécie de ilha no Brasil, tipo aquele desenho onde chove para todo lado e tem ponto que não cai na cabeça do cara. Fiquei impressionado com a força do nosso Cacique Cobra Coral.
Leandro Resende: Mesmo com as obras e os factóides, foi difícil articular apoio ao Conde. Poucos partidos o seguiram em 96. O tempo de TV do candidato é um bom exemplo disso: o PFL teve quatro minutos e o PSDB de Cabral teve 14.
O Conde, como era de se esperar, passou grande parte da propaganda defendendo o governo do qual fazia parte:
Contar: Não me escondo atrás do Cesar Maia. Sou amigo de César Maia e represento o governo. Sou candidato ao governo de César Maia. Um governo de sucesso. E eu vou a todos os debates.
Leandro Resende: Cabral aproveitou os muitos amigos do pai, o renomado jornalista e pesquisador que, na época, era assessor do Tribunal de Contas Municipal. E entre os famosos que apareceram na propaganda estava o cartunista Ziraldo.
[serginho cabral] Ziraldo: Acho que ele aprendeu com o pai. Democracia, respeito pelos direitos dos outros… O pai do Serginho Cabral é um cara maravilhoso. A família é uma lição de democracia. Ele nasceu em um berço que o prepara com tranquilidade para um futuro político sensacional.
Leandro Resende: Conde começou atrás nas pesquisas e Cabral passou a liderar com 20 pontos de vantagem sobre o candidato a prefeito, seguido por Miro Teixeira. Para tentar reverter esse cenário, César Maia apareceu ainda mais na campanha, dominando a propaganda eleitoral do seu sucessor:
César Maia: Vamos nos unir mais uma vez. E vamos eleger o Conde agora no primeiro turno.
Leandro Resende: A chance do Rio sediar as Olimpíadas de 2004 também foi superimportante para o Conde ser titular na reta final do primeiro turno. Essa campanha foi abraçada pela prefeitura e teve grande apoio popular. Com direito até a testemunhar do rei do futebol.
A campanha do Conde também teve uma estética infantil e ele até distribuiu bonecos com seu número aos eleitores. Essa linguagem menos bélica, somada ao impulso de César Maia e ao sonho da cidade olímpica, levou o posto até lá.
Contar: É exatamente com as crianças que quero assumir o meu compromisso. Se eu for prefeito do Rio, esta cidade será o lugar onde eles viverão em paz.
Leandro Resende: Conde surpreendeu e foi primeiro ao segundo turno, com 40% dos votos. Cabral tinha 24; e Chico Alencar, 21.
Leandro Resende: A surpreendente campanha de Chico levou os dois partidos de direita a procurarem o PT. Mas, para frustração de ambos, o partido pediu voto nulo no segundo turno.
Chico Alencar: Neste segundo turno, em que na nossa avaliação há dois candidatos conservadores, um é o PSDBista neodireitista, que agrada o PFL ultradireitista. A posição mais correta seria não votar em nenhum deles. Seria até recomendado cancelar a votação.
Leandro Resende: A vantagem de Conde sobre Cabral no início do segundo turno era bastante grande… E o candidato do PSDB precisava encontrar uma forma de tentar abalar o adversário – claro, visando seu padrinho político.
Cabral: Sou o candidato que representa a indignação social, a indignação com esse estado de coisas que vive a cidade, em que o professor ganha 180 reais por mês, depois de quatro anos de administração de um prefeito que se gabava de ter um bilhão no caixa, e continua pagando 180 reais ao professor.
Conde respondeu. E mirou apoiadores muito próximos de Cabral, como uma vereadora eleita que hoje, quase três décadas depois, foi denunciada por envolvimento com a milícia…
Contar: A base da Lucinha, que foi eleita, que é a lei marginal de invasão de terras, que defende vans, ônibus piratas, defende tudo que é ilegal. Queremos reconstruir uma cidade dentro da ordem. Então, essa conversa do Sérgio Cabral é muito boa para a arquibancada, mas não funciona. Ele precisa se explicar melhor.
Mas a palestra de Cabral não funcionou. Luiz Paulo Conde foi eleito prefeito do Rio em 15 de novembro de 1996, com 62% dos votos, contra 38 de Cabral. Uma vantagem histórica, que só seria superada nas eleições de 2020…
Contar: Estou bem humorado, animado, gosto do trabalho, é algo que me emociona. E estou muito feliz porque o povo do Rio de Janeiro me deu muito apoio.
Leandro Resende: Basicamente foi uma vitória do Cesar Maia. Em livro que escreveu anos depois, ele disse que, para ajudar Conde, colocou 150 pessoas em bares do Rio para espalhar o boato de que Cabral iria renunciar. O quanto ele conseguiu não pode ser medido. Mas o fato é que o Conde mudou o jogo. Então, hora de comemorar. A ideia, porém, não era muito boa…
Leandro Resende: Cesar Maia decidiu levar Conde ao Circo Voador, tradicional casa de shows do bairro da Lapa. Lá se apresentou a banda de punk rock Ratos de Porão, que vaiou e xingou o prefeito eleito. O resultado?
César Maia: Então, essa decisão foi uma decisão amadurecida e que finalmente foi evidenciada pelos atos de selvageria e violência contra uma autoridade constituída na noite de sábado. Já fechei outras casas noturnas nesta cidade, na Zona Sul, na Zona Norte, pelos mesmos motivos, e hoje estou em busca da licença do Circo Voador
Leandro Resende: O governo Conde mal começou e já havia problemas. E, assim como Brizola e Saturnino, criador e criatura também se separaram…
[conde reeleição] Contar: Agora, a partir de hoje, vou pensar na reeleição. Acredito que a perspectiva de reeleição contribui para um governo mais calmo.
Leandro Resende: Mas vou te contar isso melhor em 2000…
Leandro Resende: Este episódio utilizou áudio do acervo da rádio CBN, da TV Câmara, do History Channel e da propaganda política da época. O roteiro é meu, Leandro Resende. Na pesquisa contei com a colaboração de Júlia Mitke, Kely Morais e Thais Lotufo. A edição é de Olivia Haiad, e a edição e sonorização ficaram por conta de Bárbara Falcão e Claudio Antonio.
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